As Inevitáveis Consequências do Endividamento Público e da Queda da Selic
Com sua estratégia de imprimir moeda, reduzir a SELIC e aumentar o endividamento público para conceder privilégios para exportadores e algumas empresas com boas conexões políticas, o governo irá provocar efeitos exatamente opostos ao que deseja no médio e longo prazo.
Dado que nem o setor privado nem o setor público parecem dispostos a poupar mais, as injeções monetárias provocarão uma aceleração da inflação, talvez já no curto prazo. Em contramão com os objetivos da política, a teoria nos ensina que os agentes passarão a receber uma renda nominal maior e gasta-la em bens de consumo, elevando seus preços. Isto fará com que os estágios mais afastados do consumo, aqueles que sua política industrial tenta favorecer, sejam inevitavelmente menos lucrativos que o varejo, o atacado e o setor de serviços. Para que a farsa seja mantida, é necessário que cada vez mais moeda seja emitida. Esse desfecho não deverá tardar, e aí veremos até onde temos um regime de metas de inflação e um Banco Central independente. Caso o mercado perca a credibilidade no Banco Central, capital externo poderá sair do país e as taxas de juro, principalmente de longo prazo, subirão. A crise terá chegado.
A estratégia de conceder crédito subsidiado via endividamento público sofre do mesmo problema. Conforme o governo entra no mercado demandando recursos, ele engendra uma pressão altista sobre a SELIC. Ou seja, no médio prazo as taxas de juro em geral tenderão a subir, a menos que o governo imprima ainda mais moeda. Conforme vimos, o governo vem buscando direcionar o crédito para manter uma estrutura de ativos orientada para o longo prazo. Na contramão, o passivo é de curto prazo (moeda impressa). O inevitável aumento das taxas de juro fará com que o passivo não possa ser rolado caso a poupança não aumente.
Num excelente estudo, Pellegrini (2011), busca estimar a contribuição das operações do BNDES para a dívida pública brasileira. Na contabilidade nacional da dívida líquida (dívida bruta menos ativos), o setor público financeiro (BB, CEF, BNDES e outros) é excluído e consta como credor ou devedor do setor público não financeiro (incluindo BACEN e estatais). Para a dívida bruta oficial, o BACEN e as estatais também são excluídos. Ainda sim, o autor do estudo não segue essa metodologia e inclui o BACEN em suas estimativas da dívida bruta. Com a inclusão do balanço do BACEN, as relações internas entre tesouro e BACEN são excluídas, o que nos permite observar diretamente os efeitos das operações do BACEN sobre a dívida pública e ativo governamental.
![]() |
Os dados (calculados até maio) permitem a nós observar o avanço da transferência de recursos do tesouro para o BNDES (de 1,2% do PIB para 6,4% em 3 anos). Os ativos do BNDES são na média ativos pouco rentáveis (propositalmente subsidiados), de liquidez duvidosa e de valor econômico extremamente suspeito. Muito embora a dívida bruta tenha se mantido estável após seu crescimento em 2008, trata-se de um fenômeno temporário. Isto porque é apenas com o passar do tempo que o custo fiscal dos subsídios vai gerando déficits cada vez maiores e vai acumulando a dívida bruta - pressionando ainda mais a SELIC para cima.
Esse efeito será cada vez maior daqui para frente, uma vez que os créditos do governo junto ao BNDES têm duration média de 17,5 anos e rendem TJLP + 0,63% a.a., enquanto o passivo do governo possui custo médio próximo a SELIC (hoje em 12% a.a.) e duration média de apenas 4,2 anos (idem, p.14-15)[1]. Além disso, conforme explicado, as receitas geradas por esses ativos detidos pelo BNDES (explicitamente de longo prazo), assim como o valor de mercado dos mesmos, tenderão a cair naturalmente com o andar do ciclo econômico. Ou seja, no futuro a dívida líquida subirá e as receitas do governo cairão, prejudicando o superávit primário (economia para pagar os juros).
Até então, a economia brasileira possuía ao menos uma vantagem quando comparada com as economias desenvolvidas – o ritmo de impressão de moeda e do endividamento público vinha sendo menos acelerado. Com impostos aumentando a um passo mais lento, um diferencial de juros cada vez maior frente ao exterior e uma moeda que vinha se apreciando fortemente, o país passou a receber mais poupança externa. Esses recursos do exterior até então vinham atenuando nosso problema de rolagem do passivo de curto prazo (e a inflação de preços), problema que em sua essência é o mesmo das economias desenvolvidas.
![]() |
Os dólares oriundos de investidores estrangeiros vinham auxiliando os brasileiros em seus gastos de investimento e consumo, aliviando a pressão altista sobre a inflação e sobre as taxas de juro. Até o segundo trimestre, o país já havia recebido mais de US$ 40 bi em Investimento Direto Externo, e estimativas recentes do BACEN apontam que essa conta fechará o ano em US$ 60 bi[2], revisado de US$ 70 bi antes do agravamento da crise[3]. Esse valor é mais do que suficiente para financiar o déficit em conta corrente, até então estimado para atingir US$ 54 bi, caso os investimentos em carteira liquidados e as remessas de lucros a serem enviadas ao exterior não sofram um agravamento.
![]() |
Mesmo estando com a faca e o queijo na mão, nossos políticos se esforçam para criar problemas. Ao criar uma série de barreiras à entrada de capital e mercadorias estrangeiras, o problema da escassez de poupança (rolagem do passivo de curto prazo) é apenas agravado. Políticas como a elevação do IPI sobre carros importados apenas afastam empresas que porventura poderiam instalar fábricas no país e naturalmente elevar a percentagem de conteúdo nacional em seu produto no futuro. O recente aumento do IOF sobre a posição vendida nos derivativos de câmbio é outro exemplo de política que apenas impede a entrada rápida de poupança externa, poupança que auxiliaria na rolagem daquele passivo de curto prazo.
Além das medidas tributárias para enfraquecer o real, o governo se utiliza diretamente da política monetária (impressão de moeda) para comprar dólares e tentar elevar a cotação nos momentos de baixa. Para que essa liquidez recém-criada não seja gasta e pressione imediatamente os preços em reais, o governo emite mais títulos de dívida, novamente pressionando a SELIC para cima[4]. Dessa forma, há um custo fiscal – o custo de captação em reais junto ao público menos os medíocres ganhos aplicando os dólares em treasuries.
O balancete do governo apresentado acima mostra a evolução das reservas internacionais como percentagem do PIB. Seu valor subiu fortemente em 2008, com a alta do dólar contra o real. Novamente citando Pellegrini (2011, p.17), os custos estimados de tal política estão em R$ 140 bi para o período 2007 – Março/2011. Para o primeiro de semestre de 2011, há estimativas de um custo de R$ 15 bi[5].
Esse custo fiscal é um dos reais motivos para que o governo fique preocupado com a valorização do real, uma vez que na prática o governo paga para realizar uma aplicação sem rendimento efetivo[6]. Como o governo costuma utilizar dados da dívida líquida para justificar perante o público o aumento no seu endividamento, lhe é essencial que o valor de seu ativo suba - nem que seja à custa do contribuinte e do consumidor.
Por fim, Pellegrini nota que as operações de mercado aberto usadas pelo BACEN para enxugar a liquidez que ele imprime para comprar dólares possuem prazo médio de três meses e são indexadas na SELIC, o que eleva ainda mais o risco de rolagem do passivo do governo num momento de alta dos juros. Temos então aqui outro motivo para que o governo tenha a intenção de imprimir moeda e reduzir a SELIC a força – a rolagem de seu próprio passivo.
Caso as economias desenvolvidas permitam um cenário deflacionário (ou seja, a correção), a fuga de capitais deverá ser mais pronunciada do que em 2008. Mesmo que o governo pratique intervenções de controle cambial, dessa vez para impedir a depreciação cambial, a ampliação da gravidade dos problemas com a “economia real” fará com que a crise seja ainda mais severa.
No entanto, o processo de reversão cíclica tenderá a ser mais lento na economia brasileira do que nas economias desenvolvidas, ainda mais se considerarmos as novas rodadas de impressão monetária já em andamento e em maturação na zona Euro e nos EUA. Uma possível nova apreciação do real contra o dólar e contra o euro evitaria uma fuga de capitais e atrairia mais recursos para investimentos em carteira e IDE. Nosso passivo de curto prazo seria rolado por mais algum tempo.
[1] O valor presente do subsídio implícito nos repasses totais de R$ 180 bi feitos ao BNDES durante a crise de 2009 é estimado pelo autor em R$ 50 bi. E há quem diga que o governo no Brasil favorece os mais humildes...
[2] http://www.valor.com.br/financas/1015726/bc-reduz-previsao-de-deficit-em-conta-corrente-no-ano-us-54-bi
[3] http://br.reuters.com/article/businessNews/idBRSPE78C0QN20110913
[4] Uma SELIC ainda mais alta eleva o diferencial de juros em relação ao exterior e atrai ainda mais dólares especulativos (de curto prazo), ou seja, no médio prazo sua intervenção gera resultados opostos aos desejados.
[5] http://www.valor.com.br/financas/1005704/banco-central-diversifica-reservas-e-rentabilidade-em-2011-atinge-49
[6] O único resultado prático dessa política é financiar o consumo e o padrão de vida dos exportadores e dos usuários do dólar (americanos). E ainda há quem diga que nossa política externa é anti-americana...
Pronto Para Começar a Investir Seriamente?
![]() | Você quer obter ganhos consistentes e rentáveis no mercado financeiro? O Clube de Vienna tem a receita exata para você! Seja você também um assinante do Vienna Estratégias, uma publicação onde você pode aprender a operar de forma mais rentável e segura! Se deseja todas as ferramentas a disposição como a análise de macroeconomia, estratégias com derivativos, geração de renda e análise fundamentalista, está aqui o seu primeiro passo para chegar ao grande objetivo |
Disclaimer:
Os artigos aqui apresentados não se apresentam como recomendações de operações. Os relatórios produzidos pelo Clube de Vienna são utilizados dentro de um sistemático gerenciamento de risco de alocação, acessível apenas aos nossos assinantes, que não estão elucidados nos artigos públicos. Portanto, não utilize as informações como fonte em suas decisões operacionais. O Clube de Vienna não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.



