A Reversão do Boom Segue seu Curso
Destrinchado o plano governamental, podemos perceber que se trata explicitamente de uma tentativa de impedir o processo de reversão cíclica, o qual abordamos mais a fundo na última edição do VMT e nos textos do Vienna Fundamentalista. O objetivo é reduzir os custos (e elevar as receitas) dos empreendedores situados nos estágios mais afastados do consumo, para que os mesmos ainda sejam tão rentáveis quanto os estágios mais próximos. No entanto, ele produzirá consequências opostas às desejadas no médio e longo prazo.
Assim como no front externo, o ativo total da economia brasileira vem se expandindo insustentavelmente, estando excessivamente concentrado no longo prazo. Assim como no exterior, a expansão também aconteceu no boom de 2003-2007 e foi reativada em meados de 2009. Afinal de contas, quem é que já se esqueceu dos cortes da SELIC, da expansão do crédito fácil via BNDES, BB e isenções fiscais, supostamente para “combater a crise”? O passivo que sustentou essas transformações no ativo da economia foi em larga medida mera criação de moeda, ou seja, um passivo sem lastro em poupança real. Isso significa que o Brasil também enfrenta os mesmos problemas (rolagem do passivo de curto prazo e um ativo de longo prazo duvidoso) que as economias desenvolvidas vêm enfrentando, fato que vinha se materializando na aceleração da inflação e nas altas da SELIC. O gráfico abaixo mostra claramente como a poupança interna se encontra abaixo da média do pré-crise.
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A seguir, temos dados sobre a evolução da Oferta Monetária Austríaca (OMA). A expansão a taxas crescentes da OMA sinaliza que o boom inflacionário característico da TACE ainda possui algum fôlego[1]. Na medida em que a taxa de expansão monetária não ocorrer mais em taxas crescentes por um período significativo, teremos um indicador importante de que uma crise poderá estar se aproximando. Essa última tendência já se manifesta no indicador mais restrito M1. O ritmo de crescimento da liquidez de maior qualidade que representa o M1 (papel-moeda e depósitos à vista) já é decrescente.
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Por ser um indicador mais amplo, a liquidez inclusa na OMA é uma liquidez de segunda categoria, amparada em práticas contábeis e contratuais dúbias. Ainda sim, ela deve ser monitorada de perto pelo fato de lastrear as decisões dos agentes. Esse indicador vem apresentando taxas crescentes de expansão em 2011 principalmente devido à fuga do mercado acionário em direção a aplicações de renda fixa - incluso depósitos a prazo e poupança. A situação atual pode se manter por mais algum tempo sem conversão de parcela da OMA para M1 e M1 em cash enquanto os bancos forem capazes de rentabilizar os investidores das aplicações de renda fixa contratualmente conversíveis em M1 que compõe a OMA. Contudo, conforme a reversão do boom avança é cada vez mais difícil para os bancos encontrarem ativos com boa relação risco/retorno[2] [3]...
A TACE nos ensina que conforme as decisões de gasto dos indivíduos se mantêm orientadas para o presente (ou seja, sem queda no consumo), os ativos relacionados aos estágios produtivos mais próximos do consumo geram mais receitas e se apreciam mais rápido que os ativos nos estágios mais afastados do consumo. Isto incentiva os empreendedores e investidores a mudar seus planos, reduzindo os recursos disponibilizados para os estágios mais afastados do consumo. Assim, já que durante o boom muitos recursos foram investidos nos setores errados, há escassez relativa de ativos de curto prazo (incluso bens de consumo). Seus preços tendem a subir, bem como as taxas de juros. Esse processo é justamente o processo que a economia brasileira e mundial vem experimentando em 2011, e é o processo que o governo brasileiro (e os demais) está tentando adiar forçosamente.
O gráfico a seguir mostra que o processo de correção já foi iniciado. Estágios mais afastados do consumo, como construção civil e indústria já mostram um aumento em sua taxa de desemprego em agosto.
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Em 2011[4], os preços dos bens de consumo (conforme medidos pelo IPC) vêm subindo mais rapidamente do que os preços dos bens intermediários e de capital (cuja proxy seria o IPA).
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O gráfico abaixo mostra a desaceleração na produção industrial, principalmente quando comparada com as vendas no varejo. O PIB industrial cresceu menos que o PIB do setor de serviços, tanto no acumulado do ano quanto no segundo semestre.
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Mesmo com preços cada vez mais altos, a expansão da moeda e do crédito ainda cresce em ritmo mais forte do que o da demanda, impedindo a crise final. O reflexo dessa tendência se encontra nas vendas no varejo. Em julho, as mesmas subiram 1,4% frente ao mês anterior, enquanto em comparação com mesmo período de 2010 a alta foi de 7,1%.
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Embora ainda estejam estimulados, os estágios mais afastados do consumo não vem conseguindo sustentar o ritmo obtido em 2010. A produção de bens de capital e bens intermediários vem caindo, principalmente quando comparadas com o mesmo período do ano passado. Em julho, a tendência de maior crescimento da produção de bens de capital em relação aos bens de consumo não duráveis foi finalmente revertida.
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[1] Para uma análise bem detalhada dos ciclos econômicos e sobre como aplicar esse conhecimento na gestão de portfolio, ver nosso artigo “Ciclos Econômicos e Análise de Mercado”.
[2] Podemos perceber que a análise conjunta da OMA e do M1 nos oferece mais informações do que ambas isoladas.
[3] Além da política monetária tradicional do BACEN, o Banco do Brasil é um dos veículos “camuflados” para que o governo controle a expansão monetária. O BB pretende elevar em R$ 79 bi o crédito para o consumidor. Ver: http://www.valor.com.br/financas/1011044/bb-vai-elevar-em-r-79-bilhoes-credito-para-pessoa-fisica
[4] Inflação acumulada até agosto e anualizada.
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